Envelhecer? Envelhecer é bom demais, migx!

Envelhecer:

Verbo transitivo direto e intransitivo que deixa todo mundo com cabelo branco, visão paulatinamente turva, pele com aparência de escama, dor nas ancas e um mal estar da porra ao lembrar da inevitabilidade dos seus sinais.

Que treta né?

En-ve-lhe-cer. Rec-elhe-vne (Nem do avesso fica bom).

Mas não devia ser assim, poxa. Porque afinal, a rigor, inflexivelmente, precisamente, envelhecer é postergar o fim da vida.

É adiar a morte.

Oras! Todo mundo que nasce e não morre cedo, envelhece.

Que outro jeito?

O Toquinho manjava bastante desse papo: “(….) a gente não nasce, começa a morrer”. Eu acho essa frase bem esperta e um tanto desopressiva também. Porque quando eu vejo uma menininha de 15 anos no rolê, toda trabalhada na juventude, penso: “Vai esperando nêga, que a tua hora vai chegar”!

Alivia, sabe?

Mas embora os vincos na testa incomodem quando diante do espelho asseado, tô (me esforçando) para achar que envelhecer é bem legal.

A gente passa a atender a si mesmo de forma mais irremissível. Impreterível. A meter-se menos nas roubadas da pele e do peito; a interpretar os sinais do outro com mais diligência.

É ou não é?

Embora eu esteja bem chateada porque vou ter que começar a pintar os cabelos e não queria porque tintura resseca meus cachos, eu ando feliz com meus 40 – 4.

Fica feliz também, gentis. Olha para o bright side of the moon, para o copo meio cheio, essas coisas.

Lembra de como você era bobinho aos 20 anos e se achava super-hiper só porque já tinha assistido aulas de filosofia no primeiro semestre da faculdade, que fica tudo bem.

Sério.

Corre na farmácia, se agarra num bom creme antirugas e vai pra pixxta.

beijos, tchau

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Você já se imaginou do lado do avesso?

Você já se imaginou do lado do avesso, muito (mais muito) mais intimamente que em pelos? Imaginou-se por dentro? Por dentro, mesmo. Dentro da roupa, da pele. Da derme e da epiderme? Acho aflitivo isso, mas hora ou outra me imagino figurada assim. Intrínseca. Em camadas sobrepostas e encaixadas. Um imenso agrupamento de células organizadas em tecidos mergulhados em fluidos turvos de cores amareladas. Não é louco isso? Pensar que por fora a gente é quase todo-feito uma peça só, simplificados, mas por dentro a gente é esse monte de coisa rebuscada e invisível a olhos nus?

Você já? Já se imaginou do lado do avesso?

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Você já chorou no banho?

Você já chorou no banho e sentiu aglutinarem-se as águas em torpor?

A dos olhos e a do chuveiro em cadência, acolhendo-se, jorrando juntas, eliminando sujeira e dor?

Águas cúmplices,

Salmoradas,

Solitárias.

Águas solidárias.

Abafam-se em seus estampidos.

E em vapor, trazem para o peito o calor.

Você já chorou no banho?

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Avidez do novo

O corpo reivindica o afrouxo.

A mente postula o novo,

Escreve e escapa do roto.

Respira

Refaz-se alçada no enganoso.

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Foda-se

Hoje acordei, fiz xixi, tomei café e toquei o foda-se.

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Relógio biológico é

Uma coisa deselegante que te faz acordar às 7h50 num sábado mesmo quando seu filho pequeno está dormindo na casa da prima.

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Fome de amor

– Filhinho, o que você quer comer?

– Quero comer você, mamãe. De tanto amor.

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Traição em tempos de Netflix

– Amor vamos assistir Stranger Things?

– Vamos super. Paramos no episódio 3 né?

– Ain. Na verdade não. Ontem assisti dois capítulos depois que você dormiu. Sorry baby.

– Putz meu. A gente combinou que assistiria juntos né?

– Desculpe amor. Eu estava sem sono…

– Ah. Que coisa viu? Fica aí então que vou pro quarto assistir Gracie & Frankie. Tchau.

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Amor em tempos de Netflix

Ricardo e Paulo se amaram desde o primeiro beijo. Foi rápido. O beijo, o reencontro no dia seguinte, as malas arrumadas e as contas divididas no apartamento quarto e sala da Fradique 663. Mas a incompatibilidade veio logo: Pipoca, sofá, Netflix e o desencontro aconteceu. Ricardo gosta de séries policiais e Paulo das comédias românticas. Mas eles solucionaram logo o inconveniente. Compraram outra TV, e enquanto Ricardo assiste as séries policiais na sala, Paulo ri alto das comédias no quarto. Hoje o encontro se dá de manhã cedo. Entre o café preto e o pão com manteiga, o beijo seco prenuncia o dia. “Bom trabalho amor”. “Bom trabalho baby”. A noite, tudo igual. Cada qual na sua TV, na companhia da sua série favorita.

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Quer dançar comigo?

Você quer dançar comigo loucamente como se não houvesse amanhã? Dançar com o corpo inteiro da gente, dos pés a cabeça? Cada fração da gente dançando bem na frente do palco onde vamos ter espaço para mexer tudo: os braços abrindo e fechando para os lados, para cima e para baixo e nas diagonais e os dedos acompanhando o ritmo, sem ter que esbarrar nas pessoas que dançam só fazendo ‘pra-la-e-pra-cá’ com as pernas tímidas e retesadas? Vamos? Vamos dançar por muitas horas saindo suados vez em quando da pista para tomar um ar fresco na face e agradecer a vida? Pode ser na balada e também na sala de casa. A gente afasta o sofá, acende só a luz da sacada e dança. A gente pode descer até o chão sem pudor e vergonha dos passos descoordenados e cantar alto sem preocupar-se em atrapalhar o sono dos vizinhos. Vamos?

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