“TRIN-N-N-…”
“Alô? Tia? É a Giovana… tudo bem…. e você? Tô ligando para saber quando será aquela nossa conversa, lembra?”.“Precisa ser a noite… você sabe como é, né? Cinco horas meus netos chegam em casa e para mim vira horário de pico!”. “Entendo…. é melhor a gente conversar num meio de tarde? Só preciso ver se a minha mãe pode. Vamos ter que fazer na fábrica. A louca não pára de trabalhar um minuto”.
Filho de peixe peixinho é; tal pai tal filho; cara de um focinho do outro; não há duas sem três. Deve haver mais ditos para aclarar o que se espera, mas esses já são suficientes. A missão nas linhas que seguem é fazer valer o que Belchior escreveu e Elis Regina imortalizou. Reconhecer que “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. E não é? Outro dia ouvi meu pai pensando em volume alto: “As vezes não sei que bem quem está dizendo. Se eu ou se minha mãe. Até confundo as vozes do inconsciente”. E não é?
Pois as filhas da Cida são ela propriamente dita. O pai está por lá, em tantos cantos, mas a Cida toma conta de cada pedaço de vida. Para saber sobre as duas, basta olhar para a uma. Para saber sobre a uma, basta olhar as duas.
Adriana, a mais velha, tem 58 anos. Cabelos louros, sóbrios, sempre penteados com rabo de cavalo e distintos olhos claros como os da mãe. Coluna reta, olhar adjacente, mãos laboriosas e doceiras.
Olga, 56 anos, nariz afilado, lábios desenhados de pouco enchimento, parecem pintura em boca de boneca, como os da Cida. Mãos laboriosas mas não doceiras, anda sempre de salto alto e quando não, nas pontas dos pés.
Adriana não anda sempre de salto alto, nem nas pontas dos pés.
As duas nasceram em Catanduva, cidade quente na região araraquarense (SP) de esfumaçar asfalto e com topografia tão reclinada que até os mais rijos músculos se estafam. Filhas de Arnaldo Debenedetti (1917-1969), um genovês imigrado ao Brasil em 20 de março de 1939, vindo no “Navio Bono” di andata e ritorno in terza classe (embora nunca tenha retornado), que tinha nariz
adunco, corpo estirado de pouca gordura e cabelos no meio da cabeça, com uma grande entrada aos lados. E de Aparecida Martani Debenedetti (1934-1996), italiana de pai, mãe e marido, que tinha sinceros olhos azuis, como os da Adriana, lábios finos como os da Olga e tez branquinha como clara em neve, que sempre acobertou a chegada da idade.
Arnaldo desenrolava a língua em um tanto de idiomas. Falava, além do italiano do norte, francês, português, inglês, espanhol e latim. Cida falava o português e o italiano. Ele, vegetariano, não dispensava miolos de alcachofra e vinho tinto sobre a mesa coberta de linho às ceias. Um cálice para cada um. Para Adriana e Olga também. Cida não era vegetariana, as filhas não são e os netos também não.
Nas três casas
“Mãos doceiras… Jamais ociosas.
Fecundas. Imensamente ocupadas.
Mãos laboriosas.
Abertas sempre para dar ajuda”.
(Cora Coralina)
“Nossa casa tinha cheiro de flor, lembra Olga?”. O cheiro de flor da casa arejada na Rua Pernambuco número 6 vinha do frasco de perfume floral que Cida espirrava nos sofás, nos armários e aos ares da casa.
“(risadas) E a gente faz isso né Olga?. “Você faz Adriana?”. Faço, você não?”. “Ai… isso eu não faço…”.
Olga não borrifa perfume floral. Mas a casa dela também cheira limpeza, pois os aspiradores, vassouras, querosene trabalham firme. As irmãs dizem que a fixação por limpeza e pelo descansar impecável dos objetos sobre os aparadores, como se adormecessem em sono profundo, vem da casa da infância.
Cida, todos os dias, acordava as meninas com gemada e leite na cama. Preparava o café da manhã ao marido, a quem vivia para servir e amar, acompanhava Olga e Adriana ao colégio e voltava para cintilar a casa. Sozinha em casa tirava os sapatos, deixava livres os pés grandes – assim como as mãos – e trabalhadores e pegava um vinil, descendo de leve o braço da vitrola, até que a agulha tocasse o disco fazendo nascer canções italianas. Ela cantava enquanto arrumava a casa.
A mãe nunca deixou as filhas, sequer, lavarem uma calcinha. Era a dona da casa a quem somente ela ajeitava. Na casa de Adriana sempre foi diferente. Quando a roupa voltava da lavanderia, quem arranjava no armário eram as filhas. Mas na casa da Olga os três filhos marmanjos nunca arrumaram uma cama.
“Impressionante né Olga? Onde mamãe colocava as mãos ficava confortável. Isso ela herdou da vó Ilda”. “É Adriana, mas você é mais cuidadosa com a casa…”. “Que absurdo você falar isso Olga… você passa pano na casa duas vezes por dia”. “Você também, mas faz escondido porque seu marido fica bravo”.
Ao meio dia, antes das meninas avistarem a casa na volta do colégio, o cheiro da comida já adiantava que a mesa estava posta. Elas descalçavam os pés e sentavam à mesa. Guardanapo no colo e a família almoçava reunida. Na casa da Adriana, antes das duas filhas se casarem, a família almoçava junta. Na casa da Olga sempre foi diferente. Com horários desajustados, o almoço é servido às partes e às pressas, exceto nos fins de semana.
Tapinhas leves com as mãos pesadas da Cida e castigo no quarto às vezes sucediam. As filhas lembram que na adolescência brigavam muito por motivos à toa, principalmente quando uma pegava roupa da outra. Para evitar estes problemas, a mãe sempre comprava o mesmo número de peças de roupa para as duas.
Olga e Adriana exageravam neste ponto. Quando as filhas eram pequenas elas compravam roupas iguais para vesti-las. Só mudava a cor. Vez ou outra as filhas da Olga – eu, uma delas – inda brigam por causa de roupas.
A casa arejada da rua Pernambuco mudou de mãos quando a irmã de Cida, a Maria, casou-se e mudou-se de São Paulo para Catanduva, em 1960. As irmãs dizem que embora a relação da mãe com o lar tenha mudado, ela continuou a cuidar do forte da família, um apartamento próximo à antiga casa. “Os móveis continuaram os mesmos. A gente não sentiu muito. Aliás, sabia que são os móveis lá de casa?”, pergunta Adriana.
Juntam-se as comadres descobrem-se as verdades
O quintal da casa da Pernambuco, em vésperas de festas, era sede para a reunião das mamas, as mulheres da família, quando sentavam em volta da comprida mesa de madeira, falavam sobre os filhos, marido, enquanto esticavam a massa caseira pela extensão da mesa, cortando-a ao meio, dividindo-a em pequenos quadradinhos e depositando pelotinhas de recheio, até tornaram-se capeletti. Até hoje, quase 40 anos depois, nas festas regadas à comida em Catanduva há capeletti. Sopa de capeletti com caldo forte de galinha que cura dos excessos do álcool.
Mas o engraçado, segundo Olga e Adriana, é que a receita sempre foi a mesma, tal qual a da Cida, mas capeletti igual ao daquela época não há. Adriana diz que “é claro”, pois as mãos grossas de trabalho da mãe faziam qualquer comida ter sabor diferente. Como o molho de tomate, que as duas fazem exatamente como Cida fazia, mas não sai igual.
Nas casas de Olga e Adriana o cheiro da comida também viaja ao longe. Olga insiste em dizer que Adriana cozinha melhor. “Melhor não, com mais criatividade”. Adriana nega, embora só ela saiba fazer doces e a irmã não
“Aliás, você podia fazer aquele bombom de nozes lá pra casa, né Drica?”. Vira e mexe a mais nova liga para a mais velha e pergunta alguma receita: “Como você disse mesmo que faz a torta de shitake?”. “Você me enche o saco hein Olga? (risadas)”.
Seja café da manhã, almoço ou jantar, as mesas nas casas das irmãs sempre são fartas. Tem para todo gosto. Um almoço qualquer parece uma festa.
Na entrada, patês disputam espaço com azeitonas verdes e pretas e as rodelas de salame encaixam-se perfeitas aos pedaços de queijo. Camembert, Brie, Gouda, Gorgonzola, Parmesão. E vinho tinto. O tomate seco banhado a azeite de oliva se impõe rubro. O misancene das saladas frescas coloridas prenuncia os pratos quentes, que mesmo guardados no forno exalam cheiros que revelam vocações. A lasanha se apresenta gratinando. Impera sobre a mesa. Rouba olhares e escapa da travessa teimosa em levar consigo o queijo todo derretido. O silêncio é som da satisfação.
Não dá para saber que mesa é mais farta e colorida. Mas uma coisa dá: quando as duas irmãs se juntam na ceia de Natal a mesa inunda.
Primeiro as filhas
Cida sempre foi vaidosa. Em casa ficava à vontade, mas para jogar buraco com as amigas, alinhava-se em vestidos engomados e coloria o rosto de blush. Mas as filhas lembram que como o dinheiro era curto a mãe escolhia: preferia comprar roupas para elas e vesti-las bem a vestir-se bem. Quando moças, elas não repetiam uma roupa. Cida comprava os tecidos e a costureira fazia o vestido para o fim de semana. Tal qual a mãe, as filhas sempre dão preferência aos gostos dos filhos. “Quando você for mãe – e avó – meu Deus do céu… aí você vai ver”, afirma Adriana. “É isso que faz uma mãe feliz. Felicidade de mãe é ver o filho realizado”, completa a irmã.
As meninas iam aos bailes do Tênis Clube com vestidos novos e acompanhadas dos pais.
Adriana diz que gostava muito dos bailes. Olga diz que não. Ela também fala que era um pouco namoradeira. Olga fala que não era.
“Ah… não Olga?”. “Não! Meu único namorado foi o Antenor, meu marido!”. “Oooolga… só o Antenor? Não é bem assim…”
Mas só Adriana saía com as amigas para o footing. Sabe o que era footing? Um tipo de passeio da paquera, ou melhor, do flerte. Os rapazes ficavam parados nas calçadas, enfileirados e bem vestidos nos muros e com corpos atentos às meninas, que passavam em duplas ou trios como manequins na passarela. As meninas passavam e olhares se trocavam.
A mais nova não gostava. Preferia fazer teatro, ballet, tocar piano e se embrenhar em garagens com um grupo de jovens do movimento comunista.
Mas parece que ela prefere não falar desse tempo. “Era isso Giovana. Eu tinha uns amigos, o Cachorrão, e a gente se reunia… discutia…”.
Adriana mudou-se de Catanduva em 67. Foi estudar psicologia na USP de Ribeirão Preto. A irmã ficou em casa e estava por perto quando o pai partiu.
Brilho roubado
“Olga, pelo amor de Deus! tira esse rabinho do cabelo. Você não tem mais vinte anos”. “Ai Adriana, meu cabelo tá sujo. Tô trabalhando desde às 7 da manhã”. “Ou gente… tô perguntando! Me contem como foi o dia da morte do Arnaldo”.
O pai das meninas, todas as manhãs, fizesse chuva ou sol, nadava na piscina do Tênis Clube e, aos domingos, represa da cidade. O médico do italiano dizia que com aquela saúde o homem morreria para mais de centenário. Mas a vida interrompeu-se antes. No dia 26 de outubro de 1969 Arnaldo empenhava braçadas na represa quando uma lancha rumou em direção ao seu corpo, bateu-lhe na nuca e levou sua vida.
As irmãs dizem que ficar sem o pai foi de uma dor que não se mede. “Um homem maravilhoso, íntegro, inteligente… companheiro”, mas elas dizem que de uma forma ou de outra ele esteve sempre presente.
A morte de Arnaldo amputou o brilho dos olhos de Cida. Trinta e nove anos depois, Olga também perdeu a luz, quando o marido ficou seriamente doente. Olga passou 22 dias ao lado do leito no hospital. “Eu imaginava que a vida dele dependia deu estar lá… que eu tinha que medir a febre e que se saísse do lado ele morreria”.
“Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro…
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas…
…Eu não dei por esta mudança…
…Em que espelho ficou perdida a minha face?”
(Cecília Meireles)
Adriana diz que a mãe só reconquistou a felicidade quando os netos nasceram. Olga voltou a respirar quando Antenor saiu do Hospital. Quatro quilos mais magra.
Outra geração
Com a morte de Arnaldo, Olga e Cida retornaram para a Rua Pernambuco e Adriana permaneceu em Ribeirão Preto. SemArnaldo, sem móveis perfumados, sem dinheiro na Pernambuco. “Foi um tempo difícil”, dizem as irmãs. Maria recebeu Cida e as sobrinhas com amor, mas Olga lembra que o tio tinha hábitos muito diferentes do pai. Era meio grosseiro. Elas não se sentiam à vontade na Pernambuco. Não havia mais toalha de linho e a Cida não limpava a casa ouvindo música.
Logo Adriana se casou. A esposa de Antonio passou a assinar Adriana Debenedetti Tambasco. Olga usou o acervo de livros deixado pelo pai; fez curso de letras na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Catanduva. Pagou a faculdade dando aulas de piano e português.
Nasceu Daniella, a primeira dos netos de Cida, hoje com 33 anos e dois descendentes, que tirou a avó de um coma profundo e apresentou a “mãe Adriana”, tão dedicada e cúmplice dos filhos quanto Cida. “Eu me transformei em mãe”.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
(Fernando Pessoa)
Adriana conta que depois que a filha nasceu sua mãe passou a visitá-la com freqüência em Ribeirão Preto. Naverdade, a visita sempre foi mesmo para a netinha. “E sabe o que ela fazia Olga? Levava uma trouxa com capeletti, lasanha, molho de tomate. Tudo no ônibus!”. Daniella e Marina já se casaram.
Marina vive hoje na Suíça e liga para a casa da mama quase todos os dias. A mãe diz que ela liga para pedir receitas de comidas. Nesse mês de setembro Adriana embarca para Zurique. Ficará uns tempos com a caçula. “Mas me sinto tão culpada…. como posso ir e deixar a Daniela, meus netos e meu marido aqui sem mim?” .
Enquanto conversávamos, as irmãs e eu, na empresa de Olga, houve uma parada na prosa quando falamos da Suíça. É que mais velha se lembrou que há muito tempo já estava fora de casa. Duas horas. Por isso quis “dar uma ligadinha para ver se estava tudo bem”. A mais nova, ansiosa, levantou apressada da mesa e derrubou um copo de água. “Calma Olga!”. “Calma nada Dri! vou aproveitar pra ver se está tudo ok na produção. Não posso ficar longe”.
Daniella mora próximo à mãe. Elas jantam juntas todas as noites. Sábados e domingos o almoço é na casa de Adriana.
A mais velha conta – enquanto chora – que é muito penoso ser parecida, idêntica à Cida no quesito Mãe. “Quando as meninas cresceram e saíram de casa eu me perdi no mundo. Inda bem que vieram meus netos. Minha vida… mas que um dia se vão também”.
Em 1973 Olga também mudou a assinatura. Casou-se com Antenor Camargo e foi morarem São Carlos, cidade de temperatura amena na região central do estado de São Paulo. O pequeno Antenor Neto nasceu logo, em 74. Olga se entregou à profissão de mãe. Cida passou a ter dois caminhos para percorrer com a trouxa de comida. São Carlos e Ribeirão Preto.
O reencontro
A filha do meio de Olga, Juliana, nasceu em 77. Nos finais desta década as irmãs se reencontram. Antonio, marido de Adriana, foi chamado à São Carlos para trabalhar na Embrapa. Cida permaneceu na Pernambuco e após a morte de sua irmã Maria, cuidou do cunhado com resignação, mas continuou a visitar os netos. Em 1982 eu nasci e Adriana mudou-se com a família para Jouy En Josas, na França. Ela escrevia cartas para a mãe e irmã quase todas as semanas.
De volta ao Brasil Adriana e Olga passaram a morar no mesmo bairro. Uma, dois quarteirões acima da outra. Cida deixou a Pernambuco de vez após a morte do cunhado. As três ficaram juntas novamente.
Cida primeiro morou com Adriana, depois se mudou para casa de Olga. Dedicou o resto da vida aos netos. Às filhas, aos netos, aos genros.
As irmãs contam que a mãe sentia-se mal por viver junto delas. Sem dinheiro, sem casa. “Mas foram os anos mais felizes da minha vida. Com meus filhos crescendo saudáveis, minha mãe por perto…. eu não precisava pensar na minha casa. A mamãe fazia por mim…”, desabafa a mais nova, sem chorar mas com voz trêmula. Enquanto os netos eram pequenos Cida ia ao quarto de manhã para acordá-los.
“Dio che bella Signore… Buon giorno!
Quando fala dos netinhos Pietro, 5, e Leonardo, 8 meses, Adriana estufa o peito. “I più belli del mondo!” 2. A avó Adriana afirma que nela, o que mais vem da mãe é o apreço e paixão pelos netos. Ela faz piquenique no quintal, assiste todos os filmes infantis e brinca até de ‘pocotó’ com Pietrino, quando o coloca nas costas e ele canta “pocotó, pocotó, pocotó”. Quando faz isso Adriana sente dores nas costas. “Mas num ligo…”.
Olga está louca para ganhar um netinho. Diz que todas as amigas já têm, menos ela. Eu quero, mas “se me chamar de avó leva um tapa… eu? Avó? Inteirona desse jeito?”, questiona em tom de brincadeira.
A partida
Na década de 90 Cida foi perdendo a vitalidade. Uma cardiopatia fazia o coração crescer e o ar faltar. Mesmo assim, ela não parava de servir a família. “Eu brigava muito com ela para que parasse de trabalhar, mas não adiantava…. ela morreu nos servindo”, comenta Antenor, numa passada breve pela conversa.
Olga não pára de trabalhar um instante sequer. Acorda às seis. Seis e meia está na fábrica. E de salto alto. Volta para casa depois que todos funcionários já foram. Nos fins de semana trabalha em casa. Passapano, faz almoço, jantar, arruma os armários, tira pó. Principalmente quando as filhas vêm de São Paulo. “Mas você pensa que eu gosto? Fazer o que ué!”. Esses dias mesmo as unhas dela amoleceram e se quebraram. Ela diz que é estresse, “contas para pagar”.
Em 95 Adriana e a família se mudaram para Pavia, na Itália. A mais velha não estava por perto quando, num meio de tarde em 96, Cida partiu. Sem dor, apenas fechou os olhos e o brilho azul se apagou.
Olga caiu de cama. Adriana, longe, diz que foi o pior momento da vida. Não estar por perto para dizer adeus.
Hoje, na casa de uma e da outra, há o mesmo retrato da Cida. Uma foto 25X20 em que veste azul marinho, com olhar adjacente, lábios finos e cabelos alvos. Deve ter sido tirada num dia de buraco, ou numa festa de reveillonem Catanduva. Porisso roupa engomada e blush na bochecha.
Adriana e Olga continuam entrelaçadas na vida. As vezes a mais velha ralha com a irmã. “Olga põe uma meia que tá frio!”. E Olga fala para a irmã sofrer menos. “Nossa Drica… se está longe da Marina sofre, se vai para a Suiça sofre também. Quer saber de uma coisa? Deixa então que eu vou para Zurique!”.
Apêndice
Capeletti – receita da Cida cantada por Adriana
Bom a massa é farinha e ovo. Mistura os dois e mexe, mexe, mexe. O recheio é fácil também. Refoga carne de frango, de pernil e linguicinha de porco. Refoga bem temperadinha. Quando a carne estiver bem refogada você mói e vai ficar como uma pastinha de carne.
Depois você a abre a massa. Ela tem que ficar fina. Mas não taaaanto assim. Estica ela numa mesa grande e depois corta em quadradinhos. Emcada quadradinho você coloca uma bolota daquela pastinha e depois fecha eles que nem chapéu. Você sabia que capeletti quer dizer chapeuzinho??
Molho de tomate – receita da Cida cantada por Olga
Primeiro você compra os tomates bem escolhidinhos e maduros. Depois você coloca todos numa panelona. Não precisa tirar a casca porque ela solta sozinha. Deixa, deixa, deixa. Depois, passa aquele caldo grosso na peneira para tirar as sementinhas, que fazem mal. Aí você exagera no manjericão, cheirinho verde, salsinha. Uma pimentinha fica bom também.
Depois você refoga bastante cebola e quando ela estiver bem murchinha você joga no molho. E deixa o molho pegar o gostinho. Depois a minha mãe jogava um cálice de vinho tinto. Ficava muito bom. O meu é bom também. Eu ponho noz moscada. Mas não fica igual. Nem adianta.
São Paulo, 2008
Observação: Olga ganhou os netos desejados. Já são 3. Os de Adriana são 5.
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