O calor, o trabalho e a morte

 

Oi senhor, tudo bem? A gente trabalha no mesmo prédio, né? Nossa…. que é isso! Que calor, hein? Que abafado esse ônibus.

Ish…. se não viu nada. Com esse terno fica ainda pior. Olha, olha só minha camisa. Eu chego em casa que dá até pra torcer.

E o senhor demora muito pra chegar?

A, minha filha. Agora são 19h30 né…. chego lá pras 22h30…. é por aí. Porque eu pego o ônibus, depois o metrô e depois mais dois ônibus.

Sério? E que horas o senhor sai de casa pra trabalhar então?

Bom… eu levanto pelas 4h20 e saio de casa às 5h. Ando pro ponto de ônibus e tomo ele lá pelas 5h20. Eu pego no trabalho às 8h30. Mas de terça e quinta eu trabalho em outro serviço. Como segurança também, mas lá na Granja Julieta. É um prédio de madame.  Lá é que eu fico com um calor danado. Eu trabalho na piscina. Fico de terno embaixo do sol.

Sério? Aí fica difícil. Eu não entendo porque no Brasil, um país tropical, tem que trabalhar de terno. Qual seria o problema de um segurança vestindo camisa de manga curta?

É. E eu fico lá. Vendo as madames nadar e derretendo dentro do terno. Mas as madames da Granja Julieta são legais. Não são como as de Alphaville. As de Alphaville não olha a gente na cara. Na Granja Julieta elas falam com a gente. Outro dia uma madame me falou que ia me jogar na piscina, pra matar meu calor. Vish!!!

Bem que seria bom!!

É… seria melhor ainda ir embora dessa loucura de cidade. Eu já morei pros lado do interior, mas voltei. Quando eu me aposentar, se não morrer antes, eu vou pro interior. Se Deus quiser!

Morrer antes, senhor? Para com isso! O senhor está ótimo.

É, mas sabe como é né? Pobre só se aposenta quando morre (gargalhada). É do trabalho pro cemitério. Assim é ser pobre, minha filha.

(….)

Senhor, desço no próximo. Boa jornada pra casa! Te vejo no trabalho.

Sim! Te vejo no trabalho sexta-feira. Amanhã vou cuidar das madames da Granja Julieta.

 

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Quatro horas da manhã e acordo apertada para ir ao banheiro. Lembro naquela hora que o senhor devia estar a despertar, para vestir-se de terno quente e partir para mais um dia de trabalho, rotina de que se ocupará até se aposentar. Ou morrer.

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O que vem da mãe

“TRIN-N-N-…”

 

“Alô? Tia? É a Giovana… tudo bem…. e você? Tô ligando para saber quando será aquela nossa conversa, lembra?”.“Precisa ser a  noite… você sabe como é, né? Cinco horas meus netos chegam em casa e para mim vira horário de pico!”. “Entendo…. é melhor a gente conversar num meio de tarde? Só preciso ver se a minha mãe pode. Vamos ter que fazer na fábrica. A louca não pára de trabalhar um minuto”.

Filho de peixe peixinho é; tal pai tal filho; cara de um focinho do outro; não há duas sem três. Deve haver mais ditos para aclarar o que se espera, mas esses já são suficientes. A missão nas linhas que seguem é fazer valer o que Belchior escreveu e Elis Regina imortalizou. Reconhecer que “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. E não é? Outro dia ouvi meu pai pensando em volume alto: “As vezes não sei que bem quem está dizendo. Se eu ou se minha mãe. Até confundo as vozes do inconsciente”. E não é?

Pois as filhas da Cida são ela propriamente dita. O pai está por lá, em tantos cantos, mas a Cida toma conta de cada pedaço de vida. Para saber sobre as duas, basta olhar para a uma. Para saber sobre a uma, basta olhar as duas.

Adriana, a mais velha, tem 58 anos. Cabelos louros, sóbrios, sempre penteados com rabo de cavalo e distintos olhos claros como os da mãe. Coluna reta, olhar adjacente, mãos laboriosas e doceiras.

Olga, 56 anos, nariz afilado, lábios desenhados de pouco enchimento, parecem pintura em boca de boneca, como os da Cida. Mãos laboriosas mas não doceiras, anda sempre de salto alto e quando não, nas pontas dos pés.

Adriana não anda sempre de salto alto, nem nas pontas dos pés.

As duas nasceram em Catanduva, cidade quente na região araraquarense (SP) de esfumaçar asfalto e com topografia tão reclinada que até os mais rijos músculos se estafam. Filhas de Arnaldo Debenedetti (1917-1969), um genovês imigrado ao Brasil em 20 de março de 1939, vindo no “Navio Bono” di andata e ritorno in terza classe  (embora nunca tenha retornado), que tinha nariz

adunco, corpo estirado de pouca gordura e cabelos no meio da cabeça, com uma grande entrada aos lados. E de Aparecida Martani Debenedetti (1934-1996), italiana de pai, mãe e marido, que tinha sinceros olhos azuis, como os da Adriana, lábios finos como os da Olga e tez branquinha como clara em neve, que sempre acobertou a chegada da idade.

Arnaldo desenrolava a língua em um tanto de idiomas. Falava, além do italiano do norte, francês, português, inglês, espanhol e latim. Cida falava o português e o italiano. Ele, vegetariano, não dispensava miolos de alcachofra e vinho tinto sobre a mesa coberta de linho às ceias. Um cálice para cada um. Para Adriana e Olga também. Cida não era vegetariana, as filhas não são e os netos também não.

 

Nas três casas

 

“Mãos doceiras… Jamais ociosas.

Fecundas. Imensamente ocupadas.

Mãos laboriosas.

Abertas sempre para dar ajuda”.

(Cora Coralina)

 

“Nossa casa tinha cheiro de flor, lembra Olga?”. O cheiro de flor da casa arejada na Rua Pernambuco número 6 vinha do frasco de perfume floral que Cida espirrava nos sofás, nos armários e aos ares da casa.

 

“(risadas) E a gente faz isso né Olga?. “Você faz Adriana?”. Faço, você não?”. “Ai… isso eu não faço…”.

Olga não borrifa perfume floral. Mas a casa dela também cheira limpeza, pois os aspiradores, vassouras, querosene trabalham firme. As irmãs dizem que a fixação por limpeza e pelo descansar impecável dos objetos sobre os aparadores, como se adormecessem em sono profundo, vem da casa da infância.

 Cida, todos os dias, acordava as meninas com gemada e leite na cama. Preparava o café da manhã ao marido, a quem vivia para servir e amar, acompanhava Olga e Adriana ao colégio e voltava para cintilar a casa. Sozinha em casa tirava os sapatos, deixava livres os pés grandes – assim como as mãos – e trabalhadores e pegava um vinil, descendo de leve o braço da vitrola, até que a agulha tocasse o disco fazendo nascer canções italianas. Ela cantava enquanto arrumava a casa.

A mãe nunca deixou as filhas, sequer, lavarem uma calcinha. Era a dona da casa a quem somente ela ajeitava. Na casa de Adriana sempre foi diferente. Quando a roupa voltava da lavanderia, quem arranjava no armário eram as filhas. Mas na casa da Olga os três filhos marmanjos nunca arrumaram uma cama.

“Impressionante né Olga? Onde mamãe colocava as mãos ficava confortável. Isso ela herdou da vó Ilda”. “É Adriana, mas você é mais cuidadosa com a casa…”. “Que absurdo você falar isso Olga… você passa pano na casa duas vezes por dia”. “Você também, mas faz escondido porque seu marido fica bravo”.

Ao meio dia, antes das meninas avistarem a casa na volta do colégio, o cheiro da comida já adiantava que a mesa estava posta. Elas descalçavam os pés e sentavam à mesa. Guardanapo no colo e a família almoçava reunida. Na casa da Adriana, antes das duas filhas se casarem, a família almoçava junta. Na casa da Olga sempre foi diferente. Com horários desajustados, o almoço é servido às partes e às pressas, exceto nos fins de semana.

Tapinhas leves com as mãos pesadas da Cida e castigo no quarto às vezes sucediam. As filhas lembram que na adolescência brigavam muito por motivos à toa, principalmente quando uma pegava roupa da outra. Para evitar estes problemas, a mãe sempre comprava o mesmo número de peças de roupa para as duas.

Olga e Adriana exageravam neste ponto. Quando as filhas eram pequenas elas compravam roupas iguais para vesti-las. Só mudava a cor. Vez ou outra as filhas da Olga – eu, uma delas – inda brigam por causa de roupas.

A casa arejada da rua Pernambuco mudou de mãos quando a irmã de Cida, a Maria, casou-se e mudou-se de São Paulo para Catanduva, em 1960. As irmãs dizem que embora a relação da mãe com o lar tenha mudado, ela continuou a cuidar do forte da família, um apartamento próximo à antiga casa. “Os móveis continuaram os mesmos. A gente não sentiu muito. Aliás, sabia que são os móveis lá de casa?”, pergunta Adriana.

 

Juntam-se as comadres descobrem-se as verdades

O quintal da casa da Pernambuco, em vésperas de festas, era sede para a reunião das mamas, as mulheres da família, quando sentavam em volta da comprida mesa de madeira, falavam sobre os filhos, marido, enquanto esticavam a massa caseira pela extensão da mesa, cortando-a ao meio, dividindo-a em pequenos quadradinhos e depositando pelotinhas de recheio, até tornaram-se capeletti. Até hoje, quase 40 anos depois, nas festas regadas à comida em Catanduva há capeletti. Sopa de capeletti com caldo forte de galinha que cura dos excessos do álcool.

Mas o engraçado, segundo Olga e Adriana, é que a receita sempre foi a mesma, tal qual a da Cida, mas capeletti igual ao daquela época não há. Adriana diz que “é claro”, pois as mãos grossas de trabalho da mãe faziam qualquer comida ter sabor diferente. Como o molho de tomate, que as duas fazem exatamente como Cida fazia, mas não sai igual.

Nas casas de Olga e Adriana o cheiro da comida também viaja ao longe. Olga insiste em dizer que Adriana cozinha melhor. “Melhor não, com mais criatividade”. Adriana nega, embora só ela saiba fazer doces e a irmã não

“Aliás, você podia fazer aquele bombom de nozes lá pra casa, né Drica?”.  Vira e mexe a mais nova liga para a mais velha e pergunta alguma receita: “Como você disse mesmo que faz a torta de shitake?”. “Você me enche o saco hein Olga? (risadas)”.

Seja café da manhã, almoço ou jantar, as mesas nas casas das irmãs sempre são fartas. Tem para todo gosto. Um almoço qualquer parece uma festa.

Na entrada, patês disputam espaço com azeitonas verdes e pretas e as rodelas de salame encaixam-se perfeitas aos pedaços de queijo. Camembert, Brie, Gouda, Gorgonzola, Parmesão. E vinho tinto. O tomate seco banhado a azeite de oliva se impõe rubro. O misancene das saladas frescas coloridas prenuncia os pratos quentes, que mesmo guardados no forno exalam cheiros que revelam vocações. A lasanha se apresenta gratinando. Impera sobre a mesa. Rouba olhares e escapa da travessa teimosa em levar consigo o queijo todo derretido. O silêncio é som da satisfação.

Não dá para saber que mesa é mais farta e colorida. Mas uma coisa dá: quando as duas irmãs se juntam na ceia de Natal a mesa inunda.

Primeiro as filhas

Cida sempre foi vaidosa. Em casa ficava à vontade, mas para jogar buraco com as amigas, alinhava-se em vestidos engomados e coloria o rosto de blush. Mas as filhas lembram que como o dinheiro era curto a mãe escolhia: preferia comprar roupas para elas e vesti-las bem a vestir-se bem. Quando moças, elas não repetiam uma roupa. Cida comprava os tecidos e a costureira fazia o vestido para o fim de semana. Tal qual a mãe, as filhas sempre dão preferência aos gostos dos filhos. “Quando você for mãe – e avó – meu Deus do céu… aí você vai ver”, afirma Adriana. “É isso que faz uma mãe feliz. Felicidade de mãe é ver o filho realizado”, completa a irmã.

As meninas iam aos bailes do Tênis Clube com vestidos novos e acompanhadas dos pais.

Adriana diz que gostava muito dos bailes. Olga diz que não. Ela também fala que era um pouco namoradeira. Olga fala que não era.

“Ah… não Olga?”. “Não! Meu único namorado foi o Antenor, meu marido!”. “Oooolga… só o Antenor? Não é bem assim…”

 Mas só Adriana saía com as amigas para o footing. Sabe o que era footing? Um tipo de passeio da paquera, ou melhor, do flerte. Os rapazes ficavam parados nas calçadas, enfileirados e bem vestidos nos muros e com corpos atentos às meninas, que passavam em duplas ou trios como manequins na passarela. As meninas passavam e olhares se trocavam.

A mais nova não gostava. Preferia fazer teatro, ballet, tocar piano e se embrenhar em garagens com um grupo de jovens do movimento comunista.

Mas parece que ela prefere não falar desse tempo. “Era isso Giovana. Eu tinha uns amigos, o Cachorrão, e a gente se reunia… discutia…”.

Adriana mudou-se de Catanduva em 67. Foi estudar psicologia na USP de Ribeirão Preto. A irmã ficou em casa e estava por perto quando o pai partiu.

 

Brilho roubado

“Olga, pelo amor de Deus!  tira esse rabinho do cabelo. Você não tem mais vinte anos”. “Ai Adriana, meu cabelo tá sujo. Tô trabalhando desde às 7 da manhã”. “Ou gente… tô perguntando! Me contem como foi o dia da morte do Arnaldo”.

O pai das meninas, todas as manhãs, fizesse chuva ou sol, nadava na piscina do Tênis Clube e, aos domingos, represa da cidade. O médico do italiano dizia que com aquela saúde o homem morreria para mais de centenário. Mas a vida interrompeu-se antes. No dia 26 de outubro de 1969 Arnaldo empenhava braçadas na represa quando uma lancha rumou em direção ao seu corpo, bateu-lhe na nuca e levou sua vida.

As irmãs dizem que ficar sem o pai foi de uma dor que não se mede. “Um homem maravilhoso, íntegro, inteligente… companheiro”, mas elas dizem que de uma forma ou de outra ele esteve sempre presente.

A morte de Arnaldo amputou o brilho dos olhos de Cida. Trinta e nove anos depois, Olga também perdeu a luz, quando o marido ficou seriamente doente. Olga passou 22 dias ao lado do leito no hospital. “Eu imaginava que a vida dele dependia deu estar lá… que eu tinha que medir a febre e que se saísse do lado ele morreria”. 

 

“Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro…
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas…
…Eu não dei por esta mudança…
…Em que espelho ficou perdida a minha face?”

(Cecília Meireles)

 

Adriana diz que a mãe só reconquistou a felicidade quando os netos nasceram. Olga voltou a respirar quando Antenor saiu do Hospital. Quatro quilos mais magra.

 

Outra geração

Com a morte de Arnaldo, Olga e Cida retornaram para a Rua Pernambuco e Adriana permaneceu em Ribeirão Preto. SemArnaldo, sem móveis perfumados, sem dinheiro na Pernambuco. “Foi um tempo difícil”, dizem as irmãs. Maria recebeu Cida e as sobrinhas com amor, mas Olga lembra que o tio tinha hábitos muito diferentes do pai. Era meio grosseiro. Elas não se sentiam à vontade na Pernambuco. Não havia mais toalha de linho e a Cida não limpava a casa ouvindo música.

Logo Adriana se casou. A esposa de Antonio passou a assinar Adriana Debenedetti Tambasco. Olga usou o acervo de livros deixado pelo pai; fez curso de letras na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Catanduva. Pagou a faculdade dando aulas de piano e português.

Nasceu Daniella, a primeira dos netos de Cida, hoje com 33 anos e dois descendentes, que tirou a avó de um coma profundo e apresentou a “mãe Adriana”, tão dedicada e cúmplice dos filhos quanto Cida. “Eu me transformei em mãe”.

 

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

(Fernando Pessoa)

 

Adriana conta que depois que a filha nasceu sua mãe passou a visitá-la com freqüência em Ribeirão Preto. Naverdade, a visita sempre foi mesmo para a netinha. “E sabe o que ela fazia Olga? Levava uma trouxa com capeletti, lasanha, molho de tomate. Tudo no ônibus!”. Daniella e Marina já se casaram.

Marina vive hoje na Suíça e liga para a casa da mama quase todos os dias. A mãe diz que ela liga para pedir receitas de comidas. Nesse mês de setembro Adriana embarca para Zurique. Ficará uns tempos com a caçula. “Mas me sinto tão culpada…. como posso ir e deixar a Daniela, meus netos e meu marido aqui sem mim?” .

Enquanto conversávamos, as irmãs e eu, na empresa de Olga, houve uma parada na prosa quando falamos da Suíça. É que mais velha se lembrou que há muito tempo já estava fora de casa. Duas horas. Por isso quis “dar uma ligadinha para ver se estava tudo bem”. A mais nova, ansiosa, levantou apressada da mesa e derrubou um copo de água. “Calma Olga!”. “Calma nada Dri! vou aproveitar pra ver se está tudo ok na produção. Não posso ficar longe”.

Daniella mora próximo à mãe. Elas jantam juntas todas as noites. Sábados e domingos o almoço é na casa de Adriana.

A mais velha conta – enquanto chora – que é muito penoso ser parecida, idêntica à Cida no quesito Mãe. “Quando as meninas cresceram e saíram de casa eu me perdi no mundo. Inda bem que vieram meus netos. Minha vida… mas que um dia se vão também”.

Em 1973 Olga também mudou a assinatura. Casou-se com Antenor Camargo e foi morarem São Carlos, cidade de temperatura amena na região central do estado de São Paulo. O pequeno Antenor Neto nasceu logo, em 74. Olga se entregou à profissão de mãe. Cida passou a ter dois caminhos para percorrer com a trouxa de comida. São Carlos e Ribeirão Preto.

 

O reencontro

A filha do meio de Olga, Juliana, nasceu em 77. Nos finais desta década as irmãs se reencontram. Antonio, marido de Adriana, foi chamado à São Carlos para trabalhar na Embrapa. Cida permaneceu na Pernambuco e após a morte de sua irmã Maria, cuidou do cunhado com resignação, mas continuou a visitar os netos. Em 1982 eu nasci e Adriana mudou-se com a família para Jouy En Josas, na França. Ela escrevia cartas para a mãe e irmã quase todas as semanas.

De volta ao Brasil Adriana e Olga passaram a morar no mesmo bairro. Uma, dois quarteirões acima da outra. Cida deixou a Pernambuco de vez após a morte do cunhado. As três ficaram juntas novamente.

Cida primeiro morou com Adriana, depois se mudou para casa de Olga. Dedicou o resto da vida aos netos. Às filhas, aos netos, aos genros.

As irmãs contam que a mãe sentia-se mal por viver junto delas. Sem dinheiro, sem casa. “Mas foram os anos mais felizes da minha vida. Com meus filhos crescendo saudáveis, minha mãe por perto…. eu não precisava pensar na minha casa. A mamãe fazia por mim…”, desabafa a mais nova, sem chorar mas com voz trêmula. Enquanto os netos eram pequenos Cida ia ao quarto de manhã para acordá-los.

 

“Dio che bella Signore… Buon giorno!

Quando fala dos netinhos Pietro, 5, e Leonardo, 8 meses, Adriana estufa o peito. “I più belli del mondo!” 2. A avó Adriana afirma que nela, o que mais vem da mãe é o apreço e paixão pelos netos. Ela faz piquenique no quintal, assiste todos os filmes infantis e brinca até de ‘pocotó’ com Pietrino, quando o coloca nas costas e ele canta “pocotó, pocotó, pocotó”. Quando faz isso Adriana sente dores nas costas. “Mas num ligo…”.

Olga está louca para ganhar um netinho. Diz que todas as amigas já têm, menos ela. Eu quero, mas “se me chamar de avó leva um tapa… eu? Avó? Inteirona desse jeito?”, questiona em tom de brincadeira.

 

A partida

Na década de 90 Cida foi perdendo a vitalidade. Uma cardiopatia fazia o coração crescer e o ar faltar. Mesmo assim, ela não parava de servir a família. “Eu brigava muito com ela para que parasse de trabalhar, mas não adiantava…. ela morreu nos servindo”, comenta Antenor, numa passada breve pela conversa.

Olga não pára de trabalhar um instante sequer. Acorda às seis. Seis e meia está na fábrica. E de salto alto. Volta para casa depois que todos funcionários já foram. Nos fins de semana trabalha em casa. Passapano, faz almoço, jantar, arruma os armários, tira pó. Principalmente quando as filhas vêm de São Paulo. “Mas você pensa que eu gosto? Fazer o que ué!”. Esses dias mesmo as unhas dela amoleceram e se quebraram. Ela diz que é estresse, “contas para pagar”.

Em 95 Adriana e a família se mudaram para Pavia, na Itália. A mais velha não estava por perto quando, num meio de tarde em 96, Cida partiu. Sem dor, apenas fechou os olhos e o brilho azul se apagou.

Olga caiu de cama. Adriana, longe, diz que foi o pior momento da vida. Não estar por perto para dizer adeus.

Hoje, na casa de uma e da outra, há o mesmo retrato da Cida. Uma foto 25X20 em que veste azul marinho, com olhar adjacente, lábios finos e cabelos alvos. Deve ter sido tirada num dia de buraco, ou numa festa de reveillonem Catanduva. Porisso roupa engomada e blush na bochecha.

Adriana e Olga continuam entrelaçadas na vida. As vezes a mais velha ralha com a irmã. “Olga põe uma meia que tá frio!”. E Olga fala para a irmã sofrer menos. “Nossa Drica… se está longe da Marina sofre, se vai para a Suiça sofre também. Quer saber de uma coisa? Deixa então que eu vou para Zurique!”.

 

 

Apêndice

 

Capeletti – receita da Cida cantada por Adriana

Bom a massa é farinha e ovo. Mistura os dois e mexe, mexe, mexe. O recheio é fácil também. Refoga carne de frango, de pernil e linguicinha de porco. Refoga bem temperadinha. Quando a carne estiver bem refogada você mói e vai ficar como uma pastinha de carne.

Depois você a abre a massa. Ela tem que ficar fina. Mas não taaaanto assim. Estica ela numa mesa grande e depois corta em quadradinhos. Emcada quadradinho você coloca uma bolota daquela pastinha e depois fecha eles que nem chapéu. Você sabia que capeletti quer dizer chapeuzinho??

 

Molho de tomate – receita da Cida cantada por Olga

Primeiro você compra os tomates bem escolhidinhos e maduros. Depois você coloca todos numa panelona. Não precisa tirar a casca porque ela solta sozinha. Deixa, deixa, deixa. Depois, passa aquele caldo grosso na peneira para tirar as sementinhas, que fazem mal. Aí você exagera no manjericão, cheirinho verde, salsinha. Uma pimentinha fica bom também.

Depois você refoga bastante cebola e quando ela estiver bem murchinha você joga no molho. E deixa o molho pegar o gostinho. Depois a minha mãe jogava um cálice de vinho tinto. Ficava muito bom. O meu é bom também. Eu ponho noz moscada. Mas não fica igual. Nem adianta.

 

São    Paulo,  2008

Observação: Olga ganhou os netos desejados. Já são 3.  Os de Adriana são 5.

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Não dá para ter intimidade com a grande maioria das pessoas do trabalho

Como é que ela não percebe se isso é mais velho que andar para trás? Não dá para ter intimidade, intimidaaade, com a grande maioria das pessoas do trabalho.

De fato são relações estranhas, afinal acaba-se passando mais tempo com o cara que se senta na baia ao lado que com o marido, o cachorro, o filho, o papagaio e que, com isso, firma-se uma convivência meio bipolar (é amigo ou só o rapaz do RH?). Mas se considerar-se que é razoavelmente incomum a pessoa do trabalho ser aquela que se convida para tomar cerveja no final de semana, ou para viajar no carnaval, essa relação tem que ser minimamente contida.

Mas a Ana Clara nunca prestou atenção nisso…

E não que ela não soubesse, porque a Selma sempre deu uns toques:

“… Ana Clara, você não acha que foi demais contar que bebeu no sábado, foi embora da balada com dois caras e acordou sem lembrar nada?”.

E ela:

“Mas eu só contei para a Juju do financeiro. Aaai Selma. Como você é hein? Sempre acha que os outros podem te ferrar. Aff”. 

E aí, todo mundo da empresa conhece detalhes dispensáveis da vida de Ana Clara. Ok. Muita gente acha os pormenores imprescindíveis, não porque a vida dela é óóóó que desprendida, que prá frente, que instigante, que hippie. Mas a empresa onde ela trabalha costuma ser de uma monotonia de enterro. De barulho só se escuta a dona Rosa mordendo uma maça todos os dias às 16h e o João Carlos bufando quando fica cansado.

Nesse cenário é evidente que Ana Clara (baixinha, quilinhos acima, voz estridente) virou protagonista e as suas falações diárias o clímax do roteiro chato daquele dia-a-dia da empresa.

Todo mundo sabe, por exemplo, que o analista de sistemas com quem ela está saindo ultimamente tem o documento muito pequeno. Ora. Contando pra todo mundo que o fulano tem o negócio miúdo, ela se auto-difama. Não é ela que encara a pequeneza?

Também, a empresa toda está ciente de que o irmão dela solta pum dentro do carro e não deixa ela abrir o vidro de manhã, quando ela pega carona com ele para o trabalho. Gente. Quem precisa ouvir isso? Esses assuntos homemades não servem para nada (a não ser para os outros saberem que mau gosto vem de berço).

E tem muito mais. O ralo do banheiro que entope toda semana, o vizinho casado que ela paquera, a melhor amiga que está grávida do porteiro do clube, o nome que está no SPC por causa da parcela da Renner, o chale que está fazendo de presente para a avó, a academia que só tem aparelhos emperrados, a relação dos pais que está numa pior, a prima da tia da vizinha que está com câncer.

Que mala que ela é. Será que não se apercebe?

Outro dia até a Selma irritou.

“Ai Se…. não sei. To com uma cocerinha lá embaixo…”

“Cocerinha onde Ana Clara?”, perguntou impaciente enquanto finalizava o relatório mensal.

“Lá. Lá embaixo. Acho que é candidíase”.

“Ahhhh Ana Clara. VÁ À MERDA. Você e sua coceira!”.  

 

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Diálogo desgostado

(…)

“Eu? Eu entrei na faculdade em 2000″

“Na boa. Em 2000 eu tava na sexta série”.

 

fuck off.

 

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Organizar as coisas que não parecem ser importantes, mas são

Eu sempre fui meio desorganizada com as minhas coisas. Não com as minhas coisas do quarto, da sala. Quanto a isso eu sempre fui muito bem. Minhas gavetas estão sempre minimamente organizadas na lógica das minhas necessidades diárias. Mas eu digo desorganizada com algumas coisas que, embora não pareçam, é fundamental estarem organizadas. Do tipo…. um professor da graduação disse no primeiro dia de aula de assessoria de imprensa que a agenda (aquela agendinha de bolso mesmo) do jornalista deve ser como o seu bem mais sagrado e que dela o cara não deve nunca se separar. Pois para mim aquilo o que o Sá (lembrei o nome do professor) disse fez todo o sentido. O comunicador vive na fazedura de relacionamentos. Mas depois de 12 anos que ouvi o Sá dizer aquilo ainda patino para organizar a minha agenda. Eu tenho os telefones dos caras em algum lugar, mas não sei donde é que é.

Lembrei disso agora porque hoje os eventos me aconteceram para serem narrados. Sabe aqueles dias em que a história simplesmente se ajoelha aos seus pés? Pois é. Mas isso é assunto para outros atos. Por hora volto à questão da organização de coisas importantes (embora não pareçam). Sempre quando uma história me acontece aos olhos ou à imaginação e me dá vontade de fazer dela uma coisa narrada, fico em dúvida se paro de fazer o que estou fazendo para escrever num pedaço de papel qualquer; se saio de canto para pensar sobre o texto que poderá nascer quando eu chegar em casa; se corro em direção ao computador mais próximo. Tentei resolver com um caderninho que dorme profundamente na minha bolsa. Eu lembro quase nunca dele. Algumas vezes rascunho ideias vagas.

Hoje eu decidi pelo computador. Afinal, ele estava (está) bem perto de mim, no escritório de casa. São 4h42 da manhã e eu decidi ligar o computador e escrever aquilo o que estava me cutucando o imaginário. Escrevi e fiz virar a coisa narrada.

 

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Se não me engano o começo desse despejo da consciência na madrugada tem alguma razão de ser. Minha chefe (que admiro pela coerência e competência) me ligou às 19h45 dessa terça-feira, 45 minutos depois que eu fui embora do trabalho. Atendi pensando…. “plantão”. Não. Ela me disse: “Gi, não estou ligando para dizer que você vai fazer plantão. Onde está o posicionamento do Jornal O Globo? Você salvou na pasta? “Ish, não. Está no pen drive no meu computador”. Pensei sobre isso algumas vezes nas próximas horas.

Escrevi e fiz virar a coisa narrada. Não vou mais cometer o deslize.

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Reflexões sobre o trabalho (parte I)

 

Trabalhar não é fácil em nenhum dos sentidos. Não que eu não goste de produzir. Eu gosto muito. Aliás, acelerada do jeito que eu sou, se não o fizer eu piro. Mas a obrigatoriedade, a imperatividade, incutida no ato de trabalhar já afasta muito do prazer que a ação poderia trazer.

Sério. As vezes eu me sinto mal por pensar assim. Mas é um saco mesmo: Trabalhar impõe muitas condições aprisionantes.

Você tem que acordar cedo, tem que chegar na hora exata, tem que superar expectativas, tem que cumprir prazos, tem que prezar por uma postura profissional, tem que se vestir adequadamente, tem que bater metas, tem que manter a calma em momentos de tensão, tem que dar lucro, tem que fazer hora extra. Tem, tem, tem. Tem que ser rápido. Tem que ser eficiente. Corre. Você que tem que.

Mas não dá para Ser um pouco em vez de Ter que tanto?

Não, não dá. E nos momentos que o corpo entra em desacordo, em vez de dar uma chance pra ele a gente suprime o autorespeito e dá um jeito de continuar em ação. Muito foda. E você já parou para pensar que é isso que fazemos por quase toda a vida? A manutenção calada da nossa imobilidade individual? Pipipipipipipi (Chaves chorando).

Ultimamente eu tenho pensado bastante sobre como poderia essa relação, individualidade/trabalho, ser mais leve. Horários mais flexíveis ajudariam. Menor carga horária de trabalho também. Mas não. A ordem nessa harmonia imposta é trabalhar mais e na hora determinada.

E eu acho que no Brasil a coisa parece pior que em outros lugares. Para trabalhar a gente carrega toneladas. Aqui não se executa a matemática simples da troca da força de trabalho por recompensa financeira. A relação social que estabelecemos com o trabalho é muito comprometedora. A gente tem que estudar na melhor faculdade, ser aluno acima das expectativas, atuar na empresa reconhecida, fazer um MBA, ter promoções constantes e ainda ganhar a estrelinha de funcionário do mês.

Não dá só para trabalhar e voltar pra casa depois?

Lembro de um amigo suíço contando porque é que decidiu ser encanador. Ele dizia: “Não sou encanador por que me amo colocar a mão na merda. Sou encanador porque com essa profissão eu sou mais livre. E as pessoas precisam de encanadores pra desentupir a privada. Eu sou encanador e tenho orgulho disso”.

É claro. Não dá para desconsiderar que na Suiça um encanador ganha pelo menos 300% a mais do que ganha um encanador no Brasil. Mas o lance é que ele não se sente subjulgado por trocar canos. Para ele e para a Suiça, tanto faz se o cara opera na bolsa de valores ou drena esgotos na rua.

(….)

Nessa inesgotável conjugação do verbo ter, sobra mesmo o final de semana. Enxuto, curto, achatado. Minúsculo final de semana pra gente Ser. Sem fazer reports e timesheets. É por isso que eu vou parar de escrever essa crônica agora e tratar de Ser o que eu quiser nesse sábado. Senão vai chegar a segunda de novo e eu vou Ter que trabalhar.

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A do meio, o maior e a pequena

Sophia estava esparramada ao sofá de cor tomate e almofadas de pena, coberta só nas pernas com a manta xadrez italiano quando o irmão interrompeu-lhe o sossego. “Vou assistir The Mamouths”.

O grito de negação da menina ressoou no quarto dois andares acima, onde a mãe colocava a mais nova com trinta e nove de febre na cama:

“Mãaae o Noah quer tirar A Fuga das Galinhas, manda ele sair daquiii”.

Enquanto gritava de voz esganiçada dos quatro anos, empurrava o irmão, almofadas e a manta sofá afora. E não fazia só com as mãos. Empenhava pontapés também.

O pezinho número vinte e um acertou o lábio rosado do menino, que sumiu escada acima chorando.

Sophia suspirou um suspiro breve, reaqueceu as perninhas pálidas e tratou de apertar a tecla review do controle remoto. Voltou a película na parte que mais gostava e tantas vezes assistira.

Sophia é loura. Pálida de loura e de inverno rigoroso. Tem os cabelos finos, poucos e curtos que se confundem com a brancura da pele.

Os olhos espertos são de um azul escuro daqueles que chamam azul petróleo e o senso de humor as vezes sarcástico demais pra uma menininha nos 4. Outro dia a miss Taylor chamou a mãe de Sophia na escola pra conversar sobre um desenho da menina. A mãe de Sophia vira e mexe é chamada na escola. Inda bem que o Montessory fica a apenas cinco minutos da casa azul onde a vive a família Cooper. Cinco minutos andando.

“Senhora, a Sophia desenhou a família, veja só”, e retirou a folha de almaço da pasta de papelão. No desenho, papai, mamãe, os dois irmãos e ela. Todos de cabelos desgrenhados e pintados de preto. Mãos, pernas, cabeça, roupas. Tudo preto. “ ah…” disse a mãe desconfortável. “Tudo bem preto, né?”.

Sophia não é convencional. Seus desenhos também não o seriam.

Quando a mãe estava grávida de Anna, lá pelo sétimo mês, notou que toda a criançada do Montessory encarava-lhe na barriga ao meio dia, hora da saída. Um dia Finly não resistiu e perguntou como é que os doutores descobriram que a nenê dela era a Pequena Sereia se ela não tinha nascido ainda.

Sophia espalhou aos quatro ventos que todas as noites ouvia a irmãzinha entoando o canto da sereia lá de dentro da barriga da mãe. “O que eu num entendo tia, é como a sua nenê já sabe cantar…”, disse Finly.  “Nenês não sabem nem falar”, concluiu desconfiado.

É. Sophia adora os cartoons. Mais do que da Pequena Sereia, gosta do The Simpsons e do Horrible Henry que só assisti quando consegue burlar as ordens da babá.

Noah passa poucas e boas na mão da irmã esperta. Às sextas-feiras, quando a babá compra um pirulito e duas balas cada um após a aula de tênis, ele se prepara pra não perder o prêmio “dessa vez eu não dou, dessa vez eu não dou, dessa vez dessa vez não, dessa vez nãaao dou”, sussurrou com os docinhos apertados entre os dedos na semana passada.

Mas o papo da carie e dos dentes moles sempre assusta o menino, que no final cedeu a bala de laranja. “pega essa então que eu não gosto tanto…”. E a menina sorriu vitoriosa.

O menino doce sempre cede. Afinal os dois são grandes amigos depois da brigaiada. Foi ele quem ajudou a sustentar a história da Pequena Sereia e ouviu gozações dos colegas até Anna nascer sem escamas e nadadeiras. Ele já tem sete. Como poderia acreditar em papo da pequena sereia?

Noah é passivo, dócil e leitor. Assíduo leitor dos livros de dinossauros. Livros, dicionários, enciclopédias, quadrinhos. Mas tem que ser tudo de dinossauros, que ele conhece como ninguém. O que comiam os Tyrannosauros, com qual velocidade corriam os Velociraptors, como se defendiam os Saurópodes, e… tudo mesmo.

Quando descobre um dado novo se excita tanto que engasga e desce a escada a galopes para contar a novidade. As vezes tropeça de afoito.

“Papai, papaaaai acabei de encontrar um dinossauro argentino. Sabe onde é a argentina?? na América do sul. Veja aqui no meu mapa. Ele chama Argentinossauro”. Será que tem um desse no Museu de História Natural? Vamos lá no domingo!”.

E a semana passa lenta aos olhos ansiosos de Noah.

Além dos dinossauros, o menino ruivo de vermelhidão que puxou da família do pai, tem paixão pela chuva. Ele não foge não. Ao primeiro pingo de tantos que caem em Londres ano a ano, o menino arranca o uniforme da escola, deixa no corpo só a cuequinha. Olha atento os pingos engrossarem, respira fundo o cheiro da chuva e entrega-se à aguaceira.

É uma folia só. Ele “grita uhuuu”. E canta “siiiinging in the rain…”

A ordem é sempre essa – arranca a roupa, espera e observa a chuva engrossar, escapa pra o quintal estreito, canta e dança.

E é nessa hora que Anna espia o irmão com olhos curiosos, orgulhosos.

As vezes ela deixa até a chupeta cair da boca. Atônita. Não se sabe se pela chuva – de onde vem toda aquela água? – ou pela audácia do irmão. E ela tenta chamar atenção do menino através da porta extensa de vidro. Bate, bate com a mão quase imperceptível, empenha sons de um ano e meio (que só ela e mãe podem significar) e encosta o labiozinho no vidro fazendo-o suar.

“Se meu irmão pode, acho que também posso”, deve ter pensado a menina um dia desses.

Eram cinco da tarde e a chuva caia torrencial. A babá preparava a batata doce com fish fingers do jantar, Noah brincava, ele e a chuva, e Sophia rabiscava todo o corpo de caneta azul, “tattoos”, ela explicou mais tarde.

Anna estava lá. Absorva com a imagem do irmão. Preparando-se para o primeiro ato de coragem daquela vida curta. Arrastou a cadeira até a porta, escalou-a, abriu a maçaneta barulhenta roubando por um segundo a atenção de Sophia (só um mesmo) que voltou o olhar as tatoos e deixou a irmãzinha partir para a aventura sem interrupções.

“Eeeeba little Anna!!! Vem aqui com seu irmão!”. E agarrou a pequena (miudinha mesmo e de olhos azuis) no colo.

Anna riu alto. Gargalhou. Nem notou que o corpo esfriou. Foram os primeiros dez inesquecíveis minutos da vida da menininha. Só depois deles é que Sophia, cansada das Tattoos, chamou a babá na cozinha.

“Katka, vou ver desenho. Ahh… a Anna tá na chuva com Noah. E já faz tempo”.

Katka saiu correndo para resgatá-la.

“Direto pro banho quente!”.

Aí vem a hora do jantar e os três irmãos se amam admirando-se sentados frente à mesa longa de madeira e toalha de plástico de bolinhas. Eles adoram a hora do jantar. É quando ficam juntos, bem juntos na casa azul. Geralmente são vinte minutos quietos. A mãe os ensinou que não pode bater talheres no prato.

(…)

Sophia quebra o silêncio.

“Troca seu peixe pelas minhas ervilhas sweet?”, pergunta à Noah com voz doce. Ela comeu o peixe dela rapidamente e investe no do irmão.

A comida de Anna é diferente. As papinhas de legumes não apetecem Sophia. “Iécati”.

O volume na casa vai pro quase zero depois do jantar e das três mamadeiras com leite morno. Quer dizer, o do Noah é frio. Anna as vezes reivindica o dela frio também.

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E por falar na Dorinha….

 

“(…) Fia, vou comer essa feijoada no almoço, pode ser?”

“Ish Dorinha, eu acho melhor não. Já está aí na geladeira faz alguns dias. Eu ia até pedir para você jogar fora…”

“Acha fia. Tá ótima…”

“Será Dorinha? É de sexta passada…”

“Osh…. Sexta?  Tá é ótima. Eu tenho 65 anos e meu marido ainda me come!”.

“Bom… se é assim…”

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Não é possível que sim. Que alguém goste de limpar a própria casa

 

Eu não sei qual das rotinas domésticas é mais chata, mas em alguma medida todas elas são. Irrita-me muito a odisséia das roupas. Você tira do cesto, coloca na máquina, tira da máquina, pendura no varal, tira do varal e dobra para só depois devolver tudo no guarda-roupa. Um saco. E olha que eu não passo roupa. Claro que não.

Cozinhar até seria divertido se não fossem os processos pré e pós cozedura. Picar cheiro-verde, limpar carne (eca), cortar legumes, lavar verdura. Pronto. Tudo no fogão. Mas quando o cheiro da comida já anuncia a vocação, falta lavar a louça.

E o banheiro? O que mais me incomoda na limpeza do banheiro é a pasta de dente grudada na pia, que tem que ser arrancada à unha. E tem o problema dos respingos de xixi na privada, quando se divide o banheiro com um homem. Segundo o meu pai, os respingos são uma questão da arquitetura do pênis. Ele diz que evitar tal gotejamento é impossível. Há uns anos uma amiga encontrou uma solução. Exigiu que o marido passasse a fazer xixi sentado.  Era isso, ou o banheirinho de fora. Não sei se a punição serviu de alguma coisa.

Eu acho curioso que tem gente que gosta de limpar a própria casa. Um dia vi na TV uma mulher dizer ufanicamente (não sei se esse advérbio existe. Existe?) que para ela não existia nada mais prazeroso que encerar, lavar, arear, passar. Que todo o esforço físico se recompensava com a visão da casa limpa. Constantemente limpa. A pia da cozinha brilhando que nem prata mexicana. Os bibelôs livres de qualquer átomo de poeira. Quase um ambiente estéril.

Pra muito longe de todo esse exagero, eu limpo a minha casa. Afinal, ela não tem propriedades autolimpantes. Mas fazer cantando, como faria a tal da Amélia (aquela era mulher de verdade), não rola.

Felizes mesmo são os dias que a minha faxineira amada, a Dorinha, vai em casa. Chegar lá depois do trampo e sentir o cheiro de limpeza é priceless. Olhar para o varal e constatar que ela lavou, além das roupas, todas as almofadas e o tapete, também.

Mas no meu caso não tem Dorinha todo dia. O jeito então, quando a sujeira aporta, é encarar a vassoura. Tocar o desinfetante na privada. Arrebatar a gordura do fogão. Você termina a jornada suada e descabelada.  Mas sem sujeira à vista, pelo menos até o dia seguinte.

 

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As Dorinhas

As diaristas e empregadas domésticas são pessoas realmente fundamentais. Deveriam, além de ser muitíssimo melhor valorizadas, receber diariamente massagem nas costas, tratamento estético nas mãos, fruta recém colhida do pé. Mas não. Por aqui, no Brasil, nunca foi assim.

Mas parece que a prosa está pulando para o próximo parágrafo. Li há poucas semanas uma matéria na The Economist que dizia que o trabalho doméstico no Brasil está mudando; que com o mercado em expansão as profissionais da cera, sabão em pó e aspirador estão migrando para outras áreas. Que lhes dêem menos dor nas cadeiras.

O repórter comparou a dificuldade dos brasileiros encontrarem hoje uma trabalhadora doméstica, com aquela passada pelos ingleses no início do século XX. Ele estima que em pouquíssimo tempo não haja mais esse papo de empregada doméstica que dorme na casa do patrão, que faz jornada tripla de trabalho, que cuida da casa, do cachorro, da comida, do bebê. Aliás, em função disso, uma nova profissional deve surgir com força. A babá.

Também, a The Economist citou uma pesquisa do Ipea, que apontou que nos últimos quatro anos, enquanto a mão-de-obra da região metropolitana de São Paulo cresceu 11% e o salário médio 8%, a quantidade de empregados domésticos caiu 4% e os salários dessa categoria aumentaram 21%. Tá achando que é brincadeira? Não é.

Então, é bom cada um cuidar da Dorinha que tem. Ou então, se preparar para arregaçar as mangas.

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Comer tender e se jogar no sofá é bem bom, mas causa leseira

 

 

Tender, peru, bacalhau, lasanha, vinho, vinho, vinho, torta holandesa, torta alemã, de limão, de maracujá, maionese, farofa, castanhas, nozes, mais vinho, cerveja, uísque. Tudo misturado. É claro que dá azia depois do Natal. Dá azia e peso na consciência. E dá promessa também. Na matrícula da academia, na caminhada antes do trabalho, da redução das medidas, da boca fechada (mas só depois do Ano Novo, é claro).

As festas de fim de ano deveriam se chamar “coma tudo nessas duas semanas porque o mundo vai acabar e você não terá nada disso na sua vida post mortem”. Não é verdade? Essa fúria alimentar é mais ou menos igual à cólera alcoólico-sexual deflagrada no brasileiro a cada carnaval. Na quarta-feira de cinzas fica todo mundo só o pó, gritando com os restos de força por um fígado, um estômago e um par de pernas novos e por um banho de dignidade.

O brasileiro é assim mesmo. Intenso e por inteiro, sem meias palavras, meios desejos. A gente come o que cabe e regozija-se. E come o que não cabe também. Depois, a gente sua na testa, arranca o sapato às pressas, baixa o zíper da calça, deita no sofá com sensação de morte, tira um cochilo enquanto o estômago dá um jeito na digestão, acorda aliviado e corre na geladeira pra ver se tem algo que apeteça. No dia seguinte a gente sofre.

Mas à parte as duas semanas matadoras do final do ano que – tudo bem – não têm nada de mal está faltando comedimento na vida do brasileiro. Pesquisa do Ministério da Saúde divulgada em meados de 2011 apresentou um dado bem tenso: 48% da população adulta está acima do peso considerado ideal. Outra pesquisa, também de 2011, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), mostrou que 70% da população brasileira não pratica exercícios físicos.

O problema disso, mermão, é que a dupla excesso de peso + sedentarismo é explosiva. Hipertensão, colesterol nas alturas, diabetes e diversos tipos de câncer, entre outras doenças crônicas são ocasionados por tais fatores de risco, entre outros.

E afora os hábitos de vida brasilianos, que andam nada saudáveis, nós estamos envelhecendo cada vez mais, o que por si só já é fator de risco de um monte de doenças.

Sim, eu concordo. É lindo, feliz e contente que a pirâmide etária brasileira esteja mudando de estrutura. Isso quer dizer que a gente pode viver que nem o Oscar Niemeyer. No entanto, o corpanzil que a gente carrega hoje tem que durar sadio até lá, senão a vida tem grandes (issimas) chances de virar um transtorno.

Ao envelhecer com saúde já não se escapa das rugas, da dor nas juntas, dos ouvidos capenga. Mas ao envelhecer de uma vida adulta junk artrose, artrite, reumatismo, hipertensão, insuficiência cardíaca, diabetes, câncer e mal alzheimer (para citar algumas) podem vir junto das rugas, da dor nas juntas, dos ouvidos capenga. Em um grande pacote de inconveniências.

Então, pessoas, está na hora de assumirem a responsabilidade por sua saúde. De serem pró-ativos na busca por hábitos de vida (mais) saudáveis. Não dá mais para sustentar o papo de começar a academia sóóóóó na semana que vem. Tem que começar hoje. E tem que ser freqüente, constante.

Vai.

Termine logo de ler isso e acrescente o autocuidado com a saúde em sua lista de resoluções de ano novo.

 

 

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